segunda-feira, 19 de outubro de 2009

TEORIA ARQUEOLÓGICA EM XEQUE

Urna funerária (à dir.) e outras cerâmicas marajoaras;
tese vai contra a ideia de que a sociedade na Amazônia era complexa

Povos antigos não fizeram aterros no Pará, diz grupo

Claudio Angelo
editor de Ciência da Folha de S.Paulo

Um grupo de geólogos acaba de apimentar ainda mais uma das maiores controvérsias da arqueologia atual. Eles afirmam que os chamados tesos marajoaras, grandes aterros que abrigavam aldeias indígenas na pré-história, foram formados naturalmente, e não construídos por povos antigos.

Se confirmada, a hipótese será um duro golpe na visão atual dos arqueólogos de que a Amazônia foi habitada por sociedades complexas e altamente hierarquizadas, diferentes dos povos indígenas atuais.

Essa visão, que se estabeleceu na arqueologia sul-americana a partir dos anos 1980, sustenta que as sociedades indígenas de hoje --geograficamente espalhadas, com população baixa e cultura material relativamente simples-- são resultado do genocídio praticado pelos europeus na Amazônia a partir do século 16.

E algumas das principais evidências em favor disso estão justamente na ilha de Marajó, no Pará, foz do rio Amazonas.
As elaboradas cerâmicas coloridas marajoaras, que vão de urnas funerárias a tangas de barro, são conhecidas desde o século 19. E escavações feitas na ilha a partir dos anos 1980, sobretudo pela arqueóloga americana Anna Roosevelt, (então no Museu Field, da Universidade de Chicago), ligaram a produção dessas cerâmicas à construção dos tesos, estruturas de até 90 hectares de área por 20 metros de altura no meio da planície alagável.

Segundo Roosevelt, os tesos foram erguidos por uma sociedade de ceramistas que habitou Marajó e que teve seu apogeu entre os anos 500 e 1500. Eles serviriam de base para as aldeias (já que a região onde se encontram alaga durante metade do ano) e de cemitério.

Como a produção de estruturas monumentais demanda a mobilização de grandes quantidades de mão-de-obra, Roosevelt propôs que a sociedade marajoara fosse um cacicado, uma espécie de organização política intermediária entre uma sociedade tribal e um Estado.

Trabalhos posteriores da arqueóloga brasileira Denise Schaan, hoje na Universidade Federal do Pará, sugeriram que os tesos se articulavam em redes políticas regionais em vez de um poder centralizado.


Paleocanais

O problema dessa interpretação arqueológica é que nunca se encontraram, em Marajó, vestígios de agricultura em grande escala que pudessem ter sustentado uma população tão grande quanto Roosevelt, Schaan e colegas supõem que houvesse na ilha.

Várias soluções para o problema têm sido propostas nas últimas duas décadas, mas o debate continua aberto.

Neste ano, num estudo publicado no periódico "Geoarchaeology", um trio de pesquisadores liderados pela geóloga Dilce Rossetti, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) fornece uma nova interpretação: a maior parte da monumentalidade dos tesos marajoaras se deve não à ação humana, mas a um processo natural de deposição. A civilização marajoara teria simplesmente aumentado os aterros, ampliando um trabalho realizado pela água.

Rossetti e seus colegas mapearam, usando imagens de satélite, a rede de paleocanais que cobria grande parte de Marajó até o fim da Era do Gelo, cerca de 11 mil anos atrás. Como o nome indica, paleocanais são riachos pré-históricos, que secaram há muito tempo.
Esses canais transportavam grandes quantidades de areia e argila, que acabavam sendo depositadas em seus meandros. Quando eles secaram, esses bancos de areia acabaram virando zonas elevadas.

"Nós notamos a correspondência dos sítios arqueológicos com os paleocanais", disse Rossetti à Folha, por e-mail.

Segundo Rossetti e seus coautores, Ana Maria Góes e Peter Mann de Toledo, o formato ovalado dos tesos é uma pista de sua origem fluvial.

De posse das imagens de satélite, o grupo do Inpe também foi a campo. Em Marajó, eles perfuraram tanto os paleocanais quanto dois tesos arqueológicos, o Teso dos Bichos e o Teso Santa Luzia. Em ambos foram coletadas e datadas amostras de sedimento de 18 metros de profundidade.

A análise dos testemunhos (cilindros de sedimento de cinco centímetros de diâmetro) mostra que só nos 2 metros de cima (ou seja, as camadas mais recentes) há vestígios de material arqueológico. Abaixo disso, afirma Rossetti, "registra-se que os sedimentos não foram modificados depois de sua formação". Em bom português, os humanos participaram da construção dos tesos, mas só de sua parte final.

Estruturas menos monumentais também demandariam menos mão-de-obra em sua construção, o que abalaria a visão dos arqueólogos de uma civilização complexa.


Reversões


"Embora a questão seja interessante e válida, esse estudo não a elucida", disse Roosevelt.

A americana aponta vários problemas no trabalho, sendo o principal deles uma metodologia inadequada para investigar presença humana nos sítios.

Segundo a pesquisadora, que se prepara para vir escavar na Amazônia nas próximas semanas, perfurações usadas em geologia, por exemplo, não conseguem "ver" objetos maiores que 5 cm de diâmetro ou outros vestígios de ocupação humana --espacialmente diversificada. É por isso que "buracos" feitos por arqueólogos em um sítio sempre têm pelo menos um metro de lado.

Além disso, diz Roosevelt, os autores registraram várias reversões de camadas de areia e argila na coluna de sedimentos. "Essas inversões são indicadores clássicos de atividade monticular [construção de aterros]", diz Eduardo Góes Neves, arqueólogo da USP que escava na Amazônia Central. "Os autores têm evidências de inversões e não perceberam isso."

Neves diz, no entanto, que gosta do argumento do grupo do Inpe e que ele pode explicar mistérios como a falta de evidência de agricultura.
Rossetti admite que não domina os métodos arqueológicos, mas diz que suas evidências são bem completas. "Achamos interessante trazer esses dados para serem analisados pela comunidade arqueológica", afirma a pesquisadora.

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