quinta-feira, 9 de setembro de 2010

CRIME NO CAMPO III

Integrante do MST assassinado por milícia armada denunciou abuso policial em 2009

O integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, José Valmeristo Soares, torturado e assassinado na última sexta-feira (3) em Santa Luiza do Pará, fez uma denúncia de abuso policial, no dia 14 de junho deste ano. Ele esteve em Belém com outros seis integrantes do MST e o advogado Sérgio Guedes Martins.

Valmeristo prestou informações à Ouvidoria Agrária do Incra, onde declarou que eram 56 famílias ocupantes da fazenda Cambará e que foram retiradas de lá no dia 30 de novembro de 2009, mediante liminar de reintegração de posse.Após isso, o Incra ingressou no Juízo Agrário de Castanhal mostrando que a maior parte da área da fazenda faz parte da Gleba Federal Pau de Remo. O juiz agrário acatou o pedido do Incra e mandou o processo para a Justiça Federal.

Ainda de acordo com as declarações do integrante do MST, ao serem despejados da área, os agricultores deixaram plantações cultivadas ao longo de dois anos e quatro meses. Eles teriam tentado fazer um acordo com Marcos Bengtson, para tirar suas roças, que estavam em ponto de colheita. Inicialmente ele teria aceitado, mas depois voltou atrás e disse que ninguém iria tirar nada da fazenda, segundo Valmeristo.

De acordo com o agricultor, os integrantes do MST resolveram entrar na área novamente no dia 11 de junho, por volta das 2h da madrugada. Às 9h teriam chegado ao local oito seguranças da empresa Marca Segurança Ltda. Um deles portaria uma escopeta calibre 12 de repetição, outro um rifle e os demais, pistolas. O segurança que portava a arma calibre 12 deu dois tiros para cima e os demais deram vários tiros de pistola em direção aos trabalhadores rurais, mas ninguém saiu ferido.

Ao ouvir os tiros, o integrante do MST Paulo Sérgio Trindade dos Santos, teria gritado com um megafone para os seguranças, avisando que não atirassem porque lá teria mulheres, crianças e idosos. Os seguranças teriam parado de atirar, recuado e ido ao portão principal. de onde teriam apontado as armas para os trabalhadores, que permaneceriam em cárcere privado, já que ninguém poderia entrar e nem sair da área.

Ainda de acordo com Valmeristo, logo em seguida teria chegado o chefe dos seguranças, que se apresentou como JR, aparentanto estar sob efeito de bebida alcoólica. Esse mesmo JR, em outra ocasião, teria entregado uma intimação aos ocupantes da fazenda, dizendo que era da Secretaria Estadual de Meio Ambiente.

Depois de ficarem das 10 até as 17h encurralados, sem poder comer nem sair, um grupo de 15 agricultores foi conversar com JR e pediu para liberar a passagem dos trabalhadores, mas ele não aceitou e liberou apenas um grupo para buscar alimentação.

Desde cedo o grupo pediu socorro por telefone para diversas autoridades, como o ouvidor do Incra, Mario Tito; Eduardo Siso, da Secretaria de Estado de Segurança Pública; e o assessor do ouvidor agrário nacional. Por volta das 17h30, teriam chegado policiais militares e civis; chefiados pelo coronel Alves e cinco delegados. Os policiais estariam acompanhando o fazendeiro Marcos Bengtson. Logo depois chegou a tropa de choque em um ônibus, que o próprio coronel Alves disse que estavam lá para desocupar a área.

Os integrantes do MST argumentaram com ele que a liminar tinha sido revogada, conforme as informações do advogado Sergio Martins, da Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), que também mencionou que conversou com a Promotora Agrária de Castanhal sobre a suspensão da liminar e que ela comentou que, ao declinar da competência, o juiz suspende a liminar e oficia à Polícia. O coronel teria dito que tudo aquilo seria mentira do advogado e da promotora de justiça, que seria uma tentativa de ludibriar os trabalhadores rurais, submetendo o povo a desgaste físico e emocional.

Ainda de acordo com as declarações de Valmeristo, o coronel Alves teria informado que a liminar estava valendo e que quantas vezes os trabalhadores entrassem na área ele iria lá tirar todo mundo, com base na liminar concedida em 2009. Teria dito também que não precisava apresentar ordem nenhuma porque a ordem permanecia.

José Valmeristo Soares ressaltou em suas informações à Ouvidoria que, apesar de toda a confusão, ninguém teria saído lesionado da operação.

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