quinta-feira, 16 de julho de 2009

61ª REUNIÃO DA SBPC - MANAUS/AM

Palestra de Amilcar Baiardi, da Universidade Federal da Bahia, sobre agronegócio, na 61ª Reunião Anual da SBPC
Foto: Antonio Cruz/ABr


Pesquisador defende aproveitamento de áreas degradadas e de várzea na Amazônia pelo agronegócio


É preciso proibir ações de exploração agrícola que promovam desmatamento e substituição da vegetação original por lavouras de ciclo curto ou pastagem na Amazônia. Sem isso, áreas extensas da região podem chegar, em alguns anos, a um estágio de devastação irreversível. O argumento foi apresentado nessa quarta-feira (15) pelo agrônomo e professor do Departamento de Humanidades da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Amílcar Baiardi, em Manaus, durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Para ele, as terras firmes de florestas densas devem ser o foco de maior preocupação. “São áreas em que, no máximo, pode ocorrer um aproveitamento restrito e limitado, com sistemas agroflorestais envolvendo lavouras de ciclo longo, preferencialmente. Dessa forma, é possível expandir a produção de alimentos na Amazônia sem prejuízo à floresta, não só pensando na segurança alimentar, mas também em negócios que viabilizem emprego, renda e interesses de empreendedores”, destacou o cientista.

Em entrevista à Agência Brasil, Baiardi explicou que limitar de forma mais intensiva as ações de desmatamento na Amazônia não significa impor o fim da prática da agricultura na região. Ele defendeu o uso de técnicas que garantam a utilização do território de forma menos agressiva e, ainda, o incentivo a métodos que permitam melhor aproveitamento das áreas de várzeas e daquelas já degradadas. O pesquisador reconhece que o agronegócio é uma das atividades econômicas mais importantes do país, responsável, segundo ele, por 4% do Produto Interno Bruto do país (PIB).

Desde a década de 70, o agrônomo realiza pesquisas sobre a economia rural da Amazônia. Após quase quatro décadas de estudo, ele concluiu que o desenvolvimento do agronegócio na região não pode estar em conflito com a preservação da floresta e do sistema hidrológico. Segundo o pesquisador, a Amazônia detém pelo menos 8 milhões de hectares de áreas de várzea que poderiam ser mais bem aproveitadas, inclusive, pelo agronegócio que, na avaliação dele, atualmente está em desacordo com a racionalidade ambiental.

“Hoje o que se faz na Amazônia em agronegócio é bastante criticável. O que se pode fazer é desestimular o que já existe e criar alternativas melhores de agronegócio. Claro que a Amazônia não pode ficar eternamente dependente da produção de alimentos de outras regiões do país, mas tudo deve ser pensado para ocorrer de forma sustentável. Atualmente, o agronegócio praticado na região está se expandindo numa área em que não deveria se expandir, que é a área de terra firme”, acrescentou.

Levantamento feito pelo pesquisador revela que pelo menos seis modelos de agronegócio são passíveis de serem implementados na Amazônia sem comprometer a floresta. Entre eles estão extrativismos coletivos, com o uso de técnicas de manejo sustentável, de plantas que podem ser utilizadas em medicamentos ou cosméticos, por exemplo. Outra atividade rentável e alternativa ao agronegócio seria a prestação de serviços florestais. “Mas tudo isso deve ser feito com embasamento científico e tecnológico”, ressalva.

“Embora possível no ambiente amazônico, o agronegócio deve estar sempre condicionado a normas de sustentabilidade dos biomas e ecossistemas regionais. A várzea pode desempenhar um papel extraordinário, tanto na parte de produção vegetal quanto na parte de produção animal. Numa abordagem racional, com conhecimentos de engenharia hidráulica, pode-se viabilizar um aproveitamento mais sistemático e permanente dessas áreas, que podem ser utilizadas em ciclos curtos como no caso de grãos e também na produção de fibras”, exemplificou o docente da UFRB.

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