terça-feira, 8 de novembro de 2011

OS RIOS DA AMAZÔNIA E O EFEITO ESTUFA

Encontro dos rios Amazonas e Tapajós, em Santarém (PA). 
Foto: Edvaldo Pereira / Amazônia em Foco
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Cientistas investigam a produção de gases do efeito estufa nos rios da Amazônia
 

A produção de gases do efeito estufa, como o metano e gás carbônico, pelos rios da Amazônia, é um fenômeno complexo, ainda pouco conhecido pela ciência, apesar da sua importância para o entendimento do clima global. Em Santarém, no Oeste do Pará, um pequeno grupo de pesquisadores, vinculados ao Programa LBA (Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), vem somando esforços, há mais de uma década, no sentido de desvendar o complexo mecanismo de produção desses gases pelos diferentes ambientes aquáticos da região.
 

“Esses gases são extremamente importantes para o controle do clima global”, afirma o Prof. José Mauro Sousa Moura, do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da Amazônia (PGRNA), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). “No entanto, hoje sabemos muito mais sobre a produção de carbono oriundo das queimadas do que dos rios. A gente esquece que aquilo que é lavado das florestas vai para os rios”.
 

Segundo o pesquisador, é necessário agregar muita informação para poder saber qual a contribuição da Amazônia na produção de gases do efeito estufa, responsável pelo aumento do aquecimento global. “Depois de entendidos os processos de produção de gases, precisamos entender como a Amazônia funciona e, a partir daí, dizer qual o papel da região no clima do planeta”, afirma.
 

“Com as poucas informações que temos, sabemos que a Amazônia produz, por exemplo, muito metano, que é formado a partir da decomposição de matéria orgânica. No entanto, ainda não entendemos direito como esses gases são produzidos nos ambientes aquáticos amazônicos, que abrigam diferentes ecossistemas”, afirma o biólogo santareno, que começou a investigar a origem da produção do metano pelos rios da região no final da década de 1990, quando ainda era bolsista de graduação do LBA em Santarém. “Naquela época já sabíamos que a região amazônica era uma grande fonte produtora de metano. No entanto, não sabíamos como isso varia ao longo do ano, de local para local. Por isso, a nossa ideia era medir locais diferentes, com características diferentes”.
 

Em 2000, o grupo de pesquisa começou a estudar a origem do carbono presente no gás metano produzido em diferentes áreas alagadas e de várzeas dos rios Amazonas e Tapajós, próximas ao município de Santarém. Três locais foram escolhidos para medição: o igarapé Açu, espécie de canal que liga os dois rios, formado por uma área de mistura entre a várzea do Amazonas e área alagada do Tapajós; o igarapé do Maicá, ponto representativo de várzea do Amazonas; e o igarapé Jamaraquá, situado na Flona Tapajós, um igarapé que drena somente floresta de terra firme. “Durante cinco anos de medidas, percebemos que as diferenças entre essas áreas são muito grandes. Em termos de produção de metano esses igarapés funcionam de formas diferentes”, explica. Algo que os pesquisadores já imaginavam, mas não dispunham de nenhum estudo que comprovasse isso.
 

O grupo utilizou uma metodologia específica para traçar a origem do carbono presente no gás metano (CH4) por meio da análise dos isótopos estáveis. Através da análise da composição isotópica do gás, é possível ter uma noção de qual material dá origem ao metano produzido no fundo dos rios e lagos. “Quando a gente coleta água e quantifica os sedimentos, queremos saber de onde veio esse sedimento, qual sua idade, para se ter uma noção de qual região está contribuindo para a formação desse material. Através dessa metodologia, do uso dos isótopos estáveis, conseguimos identificar de onde vem esse material”.
 

As análises mostraram que, dependendo do local, o carbono é oriundo de gramíneas ou de espécies características de florestas. Na área de várzea, por exemplo, há uma influência muito grande do capim, principalmente na época da seca. “Na área de floresta esperávamos não encontrar mudança nenhuma. Mas ainda assim, no período de seca, verificamos uma mudança significativa na identidade desse carbono presente no metano”.
 

Segundo José Mauro, os processos de produção de gás nos ambientes aquáticos mudam também de acordo com a época do ano. Dessa forma, a produção de metano é maior na época de cheia, porque o rio alaga uma área maior. O material orgânico das plantas e a falta de oxigênio criam as condições ideais para produção do gás metano que sai do fundo dos igarapés. “A gente já tinha essa noção através de estudos para CO2, mas não sabíamos muito sobre o metano”.
 

Na cheia, a produção de gás metano sempre será maior, porque a área alagada é maior, tem maior quantidade de matéria orgânica sendo carreada da floresta pelas chuvas em direção aos rios. Esse material começa a apodrecer, gerando o gás metano. “O que a gente não sabia era que variava a fonte, que o capim tinha tanta influência na época da seca”. O capim cresce durante a cheia, coloniza uma grande área, e quando a água desce esse capim começa a morrer. É quando ele começa a influenciar o gás metano. “É uma diferenciação sazonal bem específica”.
 

Com relação à floresta, a fonte é a mesma – matéria orgânica em decomposição, mas o processo pelo qual esse gás é gerado é diferente. Os estudos realizados levaram à percepção de que não é só o tipo de material que influencia a produção desse gás, mas também o processo como ele é produzido. Um exemplo dessa interferência está na coluna de água, que quando é menor permite maior entrada de luz no ambiente, alterando as condições de temperatura da água. “São essas mudanças que interferem no processo de produção do metano”, revela o pesquisador, que possui doutorado em Ciências (Química na Agricultura e no Ambiente) pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), da Universidade de São Paulo (USP).
 

A mesma metodologia – a análise dos isótopos estáveis – vem sendo utilizada atualmente em outro projeto iniciado no ano passado, com o objetivo de entender as mudanças sofridas pelo carbono presente nos sedimentos do rio Amazonas, ao longo do trecho entre o município de Óbidos até a sua foz, nas proximidades da capital paraense. “Só para se ter uma ideia, ao longo desse perímetro temos o rio Tapajós, que é um dos maiores do mundo, e o Xingu, além de uma extensa área de alagamento na foz, que é bem diferente das áreas alagadas acima de Óbidos”, lembra o pesquisador.
 

O projeto é composto por equipes sediadas em Belém e Santarém, no Pará, e Macapá, no Amapá, além de uma equipe específica de oceanógrafos para estudar a pluma do rio Amazonas no oceano Atlântico.  “Ainda não se sabe muito sobre como esses nutrientes e gases, que estão presentes no rio, se comportam. A proposta dos cientistas é fazer medidas mais específicas nessa área da bacia, que é pouquíssimo estudada”, explica José Mauro, que coordena a equipe de Santarém, responsável pelas medições em Óbidos, região do médio Amazonas.
 

Até o momento, o que os pesquisadores sabem é que o Amazonas é um produtor de carbono, pois há muita matéria orgânica sendo carreada e transportada da várzea para o leito do rio. No entanto, a quantidade de carbono que chega à foz é bem menor do que a quantidade que é ciclada dentro do rio. Sabe-se ainda que a quantidade de troca de CO2 entre o rio e a atmosfera é muito grande. “É isso que pretendemos entender, a partir da coleta e análise da água com sedimentos: como a ciclagem do carbono acontece no leito do rio Amazonas e qual a sua participação na alteração da temperatura do planeta”.
 

Texto: Maria Lúcia Morais
 

Esta matéria é parte das atividades do curso de Especialização em Jornalismo Científico da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

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