domingo, 22 de fevereiro de 2015

POVO MUNDURUKU: PASSADO. PRESENTE... FUTURO?

Liderança Munduruku realiza palestra no Laboratório de Arqueologia Curt Nimuendajú
Jairo Saw Munduruku
Foto: Edvaldo Pereira
Em uma bela tarde ensolarada, às margens do rio Tapajós, Jairo Saw Munduruku começou a entoar canções em sua língua nativa. Eram seus sinceros cumprimentos de boas-vindas aos presentes, alunos e professores da Ufopa, que formavam um círculo ao seu redor, ansiosos para ouvir as histórias e ensinamentos da liderança Munduruku. Era uma sexta-feira 13, em fevereiro de 2015, véspera de Carnaval, mas, naquele momento, nada disso importava.

O encontro, organizado pelo grupo AnArq, que reúne professores e discentes do Programa de Antropologia e Arqueologia da Ufopa, aconteceu no exterior do Laboratório de Arqueologia Curt Nimuendajú, no Câmpus Tapajós, em Santarém (PA). O palestrante é uma liderança indígena reconhecida na região, assessor do cacique geral do povo Munduruku e grande conhecer da história da etnia.

E Jairo Munduruku falou. Falou sobre o passado e o presente dos Munduruku, como prometera. Mas falou também sobre aquilo que ameaça a paz e o futuro de seu povo. Falou sobre como era a organização política dos Munduruku desde o início de sua existência e de como o seu povo foi desenvolvendo-se, em diversas “classes”, até chegar à atual configuração.

Estima-se que só no estado do Pará existem hoje aproximadamente 12 mil Munduruku vivendo em aldeias espalhadas ao longo do rio Tapajós. Mas há ainda muitos outros Munduruku, vivendo, aldeados ou não, nos estados do Mato Grosso e do Amazonas. “Os Munduruku estão espalhados em todos os estados brasileiros”, afirma Jairo Saw, que vive na aldeia Sai-Cinza, localizada próxima ao município de Jacareacanga, no sul do estado do Pará, na divisa com o estado do Amazonas.

Durante o encontro, Jairo também contou diversas histórias que fazem parte do imaginário Munduruku, como o mito de criação do sol, que subiu aos céus por ser bom e puro; e, até mesmo, da criação da cidade de Belém. Sim, há uma lenda sobre isto também que lembra, em certo aspecto, o mito da caixa de Pandora invertido. “Não considero que sejam lendas ou mitos, pois considero que elas são reais”, afirma. “São histórias que dão lição para nós”.

Jairo também falou sobre sua principal preocupação, que pode comprometer para sempre o futuro de seu povo: a construção de barragens e hidrelétricas no rio Tapajós. “Hoje a nossa luta é por isso. É a luta pelo rio da vida, que é sagrado”.

A preservação da cultura e da identidade indígenas constitui-se em desafio permanente. “A nossa preocupação hoje é que o governo não valoriza o nosso modo de viver. A nossa história está desaparecendo”, lamenta Jairo que defende ainda a construção de uma educação indígena diferenciada, uma nova pedagogia voltada para a preservação de sua cultura e costumes. “A gente não aprende só na sala de aula, mas no ambiente que vive”.


Foto: Maria Lúcia Morais


Entrevista

Após o ensolarado encontro, que durou a tarde inteira, Jairo Saw Munduruku gentilmente nos concedeu uma entrevista exclusiva, na qual reafirmou sua preocupação com a preservação do Tapajós e da cultura do seu povo.

1. Qual a maior preocupação ou problema enfrentado hoje pelo povo Munduruku?

A nossa maior preocupação hoje é com o empreendimento do governo, que está nos afetando. Não vai afetar somente o rio Tapajós, mas sim uma série de coisas que vão nos afetar. Vai afetar a vida do rio, dos animais, dos peixes, da população. Vai haver uma mudança, um caos, para toda a população Munduruku. Não estamos falando apenas da construção de hidrelétricas. Sabemos que, a barragem sendo construída, vão vir grandes minerações, grandes pecuaristas, madeireiros... A gente se preocupa de que abrindo as portas vão vir muitas outras coisas ruins, e que não teremos sossego na nossa vida.

2. Por que o rio Tapajós é tão importante para os Munduruku? Por que ele é sagrado para vocês?

Ele não é sagrado somente para nós, Mundurukus. Ele é sagrado para a vida dos peixes no rio, sagrado para a floresta, sagrado para todas as sociedades que moram ao longo de suas margens. Então, não é só para os Mundurukus que ele é sagrado... É para toda a vida da humanidade também.

3. Durante sua palestra, você falou que há alguns pontos do rio Tapajós que são sagrados para vocês, pois estão relacionados à história do povo Munduruku. Quais são esses locais sagrados que se escondem no rio Tapajós?

Não podemos dizer exatamente onde são esses locais sagrados mas, pra nós, eles fazem parte da história, porque foram nossos antepassados que passaram por ali e deixaram suas marcas, seus rastros. Por isso que a gente diz que são sagrados, porque não se trata simplesmente de uma lenda, é real e vemos isso pelas marcas que eles deixaram.

Ao longo do rio Tapajós existem vários locais sagrados e pra nós é muito importante o registro de que realmente nós fazemos parte da construção desse mundo, dessa natureza. Um exemplo é a baia do Guajajara, para quem vai para Belém. Ali é a nossa história, o nosso ser que está ali. Se a gente for presenciar outros locais sagrados, tem a cachoeira do São Luiz do Tapajós. Também é a nossa história. Tem aldeias ali próximas ao igarapé Bom Jardim. Os antigos moravam ali, tanto que existem até hoje as plantações. Os vasos cerâmicos ainda estão lá. As plantas, os carás-inhames, ainda estão lá. Não é coisa criada. Quem quiser comprovar, tirar suas dúvidas, pode ir até lá e dizer realmente “Munduruku esteve aqui e está aqui”.

4. Você tem uma preocupação muito grande com o registro daquilo que faz parte da cultura Munduruku. Quais aspectos você tem interesse em pesquisar?

Pra mim, todos os aspectos. A música tem tudo a ver com o atual mundo que estamos vivendo agora. Está transmitindo o que está realmente acontecendo. Da mesma forma é a nossa organização política. Através das escritas, pinturas, da medicina tradicional, tudo isso é muito interessante e me preocupa a sua preservação.

5. Com relação à educação indígena, como acontece essa aprendizagem dentro da aldeia? Como as crianças são tratadas?

A criança se desenvolve naturalmente. Ela aprende com o pai, a mãe, a avó, a tia. Ela convive diariamente com a família, observando o que o pai faz, a mãe faz, durante a caçada, a pesca, na roça. A criança vai aprendendo e passa a exercer a função que o pai está exercendo. O espaço da escola não oferece isso. A criança fica presa ali, ela não consegue se desenvolver. Quando ela volta da escola, ela não vai mais querer acompanhar o pai para pescar. Essa é a nossa preocupação de construir uma nova educação, uma educação diferenciada na própria pedagogia, porque ela acompanhando o pai ela aprende muito mais do que estando apenas na sala de aula, pois aprende com a prática, não só na teoria. Por isso acho mais interessante uma educação nesse contexto.

Maria Lúcia Morais – colaboradora do blog

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