quarta-feira, 3 de junho de 2015

Antropólogos e arqueólogos questionados

Estudantes indígenas denunciam discriminações em curso da UFOPA

A mensagem entregue ao Programa de Antropologia e Arqueologia/UFOPA, em 18 de maio, com cópias para diversas organizações, incluído o Ministério Público Federal, é assinada por três entidades representantes dos alunos indígenas do Baixo Tapajós na instituição

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Ao PAA – Programa de Antropologia e Arqueologia*

Nós, Organizações de legítima representatividade dos POVOS INDÍGENAS: Diretório Acadêmico Indígena (DAIN) da Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA, diretório que representa aproximadamente 250 indígenas de diferentes etnias, dos município Santarém Belterra Aveiro, Itaituba, Jacareacanga, Oriximiná e Altamira, junto o Conselho Indígena Tapajó Arapiuns (CITA), representante juridicamente dos povos da região do Baixo Tapajós nos Municípios de Santarém, Belterra e Aveiro no Estado do Pará, povos estes: Arapiun, Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapú, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Tapajó, Tapúia, Tupinambá e Tupaiu, e o Grupo de Consciência Indígena (GCI), vimos por meio deste SOLICITAR deste colegiado UM POSICIONAMENTO E AÇÃO com relação a conflitos políticos, e o porquê da omissão deste programa frente a alguns acontecimentos que vem ocorrendo por parte de alguns discentes indígenas waiwai pertencentes ao mesmo.

Atualmente, os POVOS INDÍGENAS do Baixo Tapajós passam por tensos conflitos no âmbito politico-educacional, promovidos por alguns indígenas do povo waiwai, tendo como principais protagonistas alunos com vínculo acadêmico ao Programa de Antropologia e Arqueologia da Ufopa(PAA). No ultimo dia 25 de março de 2015 em audiência no Ministério Público Federal, onde estavam presentes, lideranças indígenas dos Povos do Baixo Tapajós, alunos waiwai, entre eles, Walter WaiWai, Roque WaiWai e Jaime WaiWai estudantes de antropologiae arqueologia, e outros Waiwai; além de alguns outros estudantes Munduruku do Médio e Alto Tapajós; Dr. Camões, procurador da República; Jane Beltrão, vice presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA); o antropólogo prof. Dr. Florêncio Vaz, professor do PAA e diretor da Diretoria das Ações/UFOPA; o antropólogo Prof. Dr. Rubens Dourado, professor do PAA e vice Coordenador do PAA/UFOPA e o Sr. Wallace Carneiro, advogado do Setor Jurídico UFOPA, convocada pelo Dr. Luís Camões Boaventura, com o objetivo de amenizar os conflitos entre os grupos étnicos, porém, durante a reunião, o aluno Walter WaiWaise posicionou de forma totalmente preconceituosa e com tons ameaçadores para com os Indígenas do Baixo Tapajós, ameaças estas direcionadas, em especial, à liderança indígena, o Sr. João Tapajós, nas quais o mesmo, Walter, o chama de “branco”, negando assim, com preconceito, a identidade étnica do mesmo, além de ameaçar fisicamente outra liderança indígena reconhecida pelo movimento, o Sr. Adenilson,PoróBorari, a qual foi contida pelos demais presentes. E também com o Sr. Gedeão Monteiro, liderança indígena Arapiun, coordenador do Ensino Médio Modular Indígena, desde 2010,o qual vem tendo sua identidade étnica constantemente negada por Walter.

Depois da cansável discussão, conciliou-se que o Sr. Walter Waiwai e demais representantes de seu povo, os quais o apoiam, não mais deveriam se manifestar com preconceito para com os indígenas do Baixo Tapajós, conciliação esta firmada com mediação feita pelo próprio Procurador da República, com auxílio dos antropólogos que ali estavam, incluindo a vice coordenadora da ABA, a qual representa a profissão em que o mesmo está se formando, ou melhor, em que o PAA/UFOPA está o HABILITANDO, onde todos foram UNÂNIMES em afirmar que o discurso do Walter Waiwai se encontra totalmente contrário ao que estuda a Antropologia.

Depois desse episódio, alunos indígenas do Baixo Tapajós, vinculados ao programa PAA, e à UFOPA como um todo, sentem-se desconfortáveis com essa situação, uma vez que, esses conflitos que, de certa forma, perpassou para fora da Universidade, continua dentro do PAA e de outros Institutos, podendo até gerar conflitos físicos entre os pertencentes aos grupos étnicos envolvidos. Para acirrar mais ainda esses conflitos, essa semana, lideranças do CITA, DAIN e GCI, tiveram acesso ao documento (anexo)* que reafirma os preconceitos por parte de alguns WaiWai, onde, em especial, destacam-se as assinaturas de Walter Waiwai, Beni WaiWai, Roque WaiWai (todos alunos de antropologia da UFOPA), Jaime WaiWai (aluno de arqueologia da UFOPA) e mais outros WaiWai pertencentes a outros programas envolvidos. Nesse documento é legítima a acusação de que nosso atual coordenador do Ensino Modular Indígena não é “índio de verdade”, sendo assim, um “falso índio”, como todos os povos do Baixo Tapajós.

Sendo assim, REPUDIAMOS A ATITUDE DO PAA, no que se refere à omissão de parte seu quadro docente frente aos últimos acontecimentos envolvendo a integridade étnica dos povos da região do Baixo Tapajós, a saber: No caso da sentença do Sr. Juiz Airton Portela, a qual negou a existência étnica dos povos Borari e Arapiun, e consequentemente os demais povos da região, sentença esta com grande repercussão na mídia nacional, que, pela proporção do fato, caberia à categoria, no mínimo, uma nota com parecer antropológico, independente de uma solicitação formal, respaldando até mesmo a atual “pseudopolítica etnoeducacional” promovida pela instituição, a qual faz parte, ressaltando que este posicionamento não caberia apenas ao PAA, mas a própria UFOPA, por conta das críticas contidas na sentença referentes ao Processo Seletivo Especial Indígena (PSEI) da mesma. E, também, em relação à postura do aluno Walter Waiwai, o qual está prestes a se formar sem ter o mínimo de respeito e compostura ética inerente à profissão do Antropólogo, além de estar totalmente desprovido de embasamento teórico, o qual foi maciçamente discutidos em sala aula, para respaldar seus argumentos ao afirmar que na região do Baixo Tapajós não há índios, postura esta que causou temor e preocupação na própria Vice presidente da ABA, Jane Beltrão, no que diz respeito ao tipo de profissional que vem sendo formado pela instituição UFOPA.
A sensação que nós, indígenas do Baixo Tapajós, temos é de uma implícita e ao mesmo tempo explícita discriminação manifestada por meio das atitudes e discursos de vários segmentos da instituição, em especial, do próprio corpo docente, não todos. Por vezes, parecemos ser invisíveis a estes profissionais, que, talvez tenham as mesmas concepções do aluno Walter Waiwai e do Sr. Juiz Airton Portela. Não somos tratados como indígenas por não sermos bilíngues? Ou por que não somos “exóticos” e selvagens, a ponto de responder aos fatos da maneira como agiria o indígena de suas concepções?  Entendemos que para estes profissionais, de uma forma geral, os indígenas que atualmente estão na Universidade são apenas os Waiwai e os Munduruku. Talvez, essa postura, não percebidas, apenas, por eles próprios, docentes, esteja contribuindo para alguns grupos éticos se acharem no direito de ser mais indígenas que outros, gerando toda essa “bola de neve”.  Nesse sentido, a omissão de tais fatos, para nós, configura-se como uma conivente discriminação.

Como prova do proferido, foi o último acontecimento envolvendo o pesquisador Daniel Belik, convidado pelo PAA, para ministrar uma palestra sobre sua pesquisa de Doutorado a ser realizada junta ao povo Munduruku – alvo de frequentes pesquisas – a qual foi contestada por alunos do presente grupo étnico, hoje na universidade. Os quais alegaram que o mesmo não tem autorização do povo Munduruku do Alto e do Médio Tapajós para realizar sua pesquisa.

Mediante o fato, provavelmente, por se tratar de um grupo, como já mencionado, bilíngues, o PAA, a nosso ver, mostrou-se muito preocupado e até solícito com a causa do povo Munduruku, nada contra os parentes, somos até solidários com os mesmos, mas acreditamos ter um exagero por parte de alguns professores do Programa na tentativa de sanar em tempo hábil um fato que, para nós, indígenas do Baixo Tapajós, é apenas “uma gota d´agua” frente ao “oceano de problemas” que estamos enfrentado, e que da mesma forma, atingem diretamente a credibilidade, não só do programa como do próprio papel do Antropólogo atuante na universidade, mas que, no nosso caso, até o momento, nada fizeram.Vale frisar que o caso “Daniel Belik” não deveria ter tomado tal proporção, até mesmo porque o convite ao palestrante não foi feito apenas por um Docente, mas sua indicação foi sugerida e acatada em reunião de colegiado.

Repudiamos ainda o fato dos docentes (não todos), “exigirem” um documento formal para poder se manifestar, uma vez que os mesmos têm ciência da gravidade dos fatos que estamos enfrentando. Por entendermos que a antropologia é a área do conhecimento que tem melhor embasamento teórico para lidar com assuntos relacionados à questão de pertencimento étnico, não compreendemos o porquê da omissão do PAA, e mais ainda, o porquê que um(s) discente(s), estudante(s) de antropologia apresenta(m) tal postura preconceituosa, e, quando embasados, com teorias duvidosas.

Tudo que está acontecendo, leva-nos a questionar até que ponto esses estudantes estão “preparados antropologicamente” para saírem com o diploma desta Universidade, mas em especial, com a formação do PAA? Não queremos que esta Universidade ou esse Programa seja mais um “formador” de inimigos dos Povos indígenas, especialmente dos Povos Indígenas do Baixo Tapajós. Um diploma em mãos erradas e sem o devido mérito, na atual conjuntura, para nós, está mais do que provado ser uma “arma letal”.
As coisas já parecem dar indícios de estar fora de controle. Aos poucos estamos cada vez mais desacreditados, até mesmo das próprias fundamentações teóricas que estudamos no curso de Antropologia. Não é fácil ver teoria e prática andarem tão desunidas. Aprendemos uma coisa e alguns de nossos docentes agem contrários ao ensinado – lembrando que não são todos os docentes.

Muitos parentes estão constrangidos em ter que dividir o mesmo espaço que alguns indígenas Waiwai, também não são todos. A situação está tão insuportável que alguns acadêmicos indígenas estão desmotivados no curso de Antropologia e já pensam em desistir ou mesmo fazer mobilidade para outros institutos para não ter que se deparar com esses alunos e professores, abstendo-se do preconceito e da hipocrisia. Como pode-se perceber nossos indígenas do Baixo Tapajós, por conta desses acontecimentos, estão psicologicamente abalados. Quando o caso tem a ver com nossa identidade, ele não fica apenas na universidade, levamo-los para casa.

Aproveitamos este documento para solicitar ao MPF e a própria UFOPA que promovam uma reunião com todos os devidos seguimentos: FUNAI, PAA, ICS, Diretoria de Ações Afirmativas da UFOPA, acadêmicos e lideranças indígenas, Reitoria, PROGES e demais institutos da UFOPA, a fim de buscar soluções que amenizem a sociabilidade dos indígenas na universidade.

É impossível nossas insatisfações serem contempladas nesse único documento, mas esperamos que o nosso pouco aqui tratado possa ser motivo de reflexão e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para que o PAA e a UFOPA como um todo possam se manifestar em relação aos fatos apontados.

Sem mais.

DAIN – Diretório dos Acadêmicos Indígenas
CITA – Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns
GCI – Grupo de Consciência Indígena



* Entidades copiadas: ICS – Instituto de Ciências da Sociedade; PROGES/DAA – Pró Reitoria de Gestão Estudantil /Diretoria de Ações Afirmativas; PROEN – Pró Reitoria de Ensino; Ouvidoria da Universidade Federal do Oeste do Pará; MPF – Ministério Público Federal FUNAI – Fundação Nacional do Índio; ABA – Associação Brasileira de Antropologia.

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